Não me acordes
Deixei-te levantar-te, mais uma vez, sem dizer nada. Às vezes parece que me olhas durante a noite toda, à espera que adormeça. Mas há muito tempo que o sono não me visita. E está cada vez mais fácil para mim fingir que estou a dormir. Repouso os meus olhos no chão, contando infinitamente os pequenos defeitos do soalho de madeira, como se amanhã por magia não lá estivessem... ou não tivesse que os contar. As lágrimas deslizam-me silenciosamente pela face, como se dançassem ao som constrangedor de um nada que se repete, noite após noite, enquanto não dormimos. Preparas-te para ir embora, sem sequer me dares um último beijo de boa noite. Nem imaginas a falta que me faz que me toques. Quem sou eu para te perguntar onde vais de noite, se quase nem nos falamos de dia? Encostaste a porta, e o ciclo repete-se. A nossa vida é uma fachada, sabias? Não te espantes se qualquer noite eu não estiver aqui, quando te apetece voltar. E nem te atrevas a olhar para mim durante o dia. Nem te atrevas.


