Despertar
Acordei com a falta da tua presença, ironia das ironias. Ainda te procurei pela cama de olhos fechados, como se coubesses nos escassos centímetros que me restavam apalpar, ou se tivesses por hábito fazer o pino assim que acordasses. Soltei um suspiro, não sei de conformado, se de alívio. Ainda tenho dificuldade em distinguir o que sinto no que toca a ti. Sei que te gosto do cheiro da pele, da forma como ris. Sei que te estou habituado a ouvir nos teus afazeres, quando chego a casa mesmo a tempo de perder o jantar. Aborreces-me quando me ignoras de dia, mas sei que a tua falta de atenção me chega. Nunca fui muito exigente contigo, sabes bem disso. Foram raras as vezes que discutimos, mais raras ainda as que te levantei a voz. Tu? Tornaste-te numa especialista da nossa falta de harmonia. Viras-me as costas como se não estivesse ali ninguém, deixando-me a respirar sozinho o ar baforento a que sabe o silêncio de quem nos faz falta. Nunca te disse o quanto me magoavas quando o fazes. Talvez esteja a guardar esse trunfo para outra ocasião, cínico que estou de que um dia te vais dar ao trabalho de ouvir os meus desabafos. Porra. E ainda nem me levantei.

