Chove, aqui fora
Chove torrencialmente lá fora. Perco-me, no tempo que passo sentado perto da janela. Nunca chegaste a perceber porque fiquei imediatamente apaixonado pela casa, assim que nos abriram a porta para entrarmos. Também nunca me perguntaste, não foi? Como até tinhas perguntado o preço às escondidas, como fizeste com todas as outras que tínhamos visto, nem reclamaste quando abracei o sujeito da imobiliária e lhe disse que não precisavamos de procurar mais... era aquela, sem a menor sombra de dúvida. Esboçaste um sorriso vitorioso, lembro-me bem. Sabias que me derretia com a hipótese de viver num apartamento destes, cuidadosamente restaurado, mas com as rugas do tempo ainda bem visíveis. Nunca fui muito de merdas contemporâneas. Irritam-me as arrumações traçadas numa complicada equação de física, onde aparentemente ganha quem usar as cores mais berrantes e as mais intrincadas combinações dos tapetes da casa-de-banho com os quadros da sala. A decoração retrógada acabou por nascer naturalmente dos meus inexplicáveis gostos pela madeira, e da tua indiferença geral para com o sítio onde um dia vamos criar os nossos filhos. Foi pelas janelas, meu amor. Apaixonei-me pelas janelas, como um dia me apaixonei pelo teu sorriso, enquanto me massacravas nos matraquilhos da faculdade. Pelas mesmas janelas onde me sento, noite após noite, olhando-te pelo reflexo do vidro... como se estivesse do lado de fora, e te implorasse para me deixares entrar.


