Chegar
Hesitei antes de entrar, convicta que já tinhas chegado. Solto um suspiro e levo as costas da mão à cabeça, como se o trabalho de escravidão a que sou sujeita na galeria durante o dia nada fosse, quando comparado com a inconveniência da tua presença. Rodo a chave e entro. Não me sinto em casa. Não lhe sinto o conforto de outrora, nem lhe reconheço os cantos. Os tapetes, foste tu que escolheste. As plantas que tanto estimas invadem-me as paredes aos poucos e poucos, e crescem ao ritmo da atenção que lhes dás. Que inveja que lhes tenho. Nem sabes as vezes que já provaram o sabor da minha fúria. "Desculpa, mas estavam a apodrecer." E tu finges que acreditas, porque sabes que não me podes abrir a boca. És um cobarde. E escusas de me olhar dessa forma, só porque hoje fizeste questão de chegar mais cedo a casa do que eu. Também queria poder olhar para ti, e lembrar-me do rapazolas de calças de ganga esfarrapadas que um dia me seduziu. Mas não posso. Das poucas vezes que te deixo olhar-me nos olhos, desfaleço. Sabes disso. E é por isso mesmo que não me vês. Porque eu não quero.
