Wednesday, January 11, 2006

Chegar

Hesitei antes de entrar, convicta que já tinhas chegado. Solto um suspiro e levo as costas da mão à cabeça, como se o trabalho de escravidão a que sou sujeita na galeria durante o dia nada fosse, quando comparado com a inconveniência da tua presença. Rodo a chave e entro. Não me sinto em casa. Não lhe sinto o conforto de outrora, nem lhe reconheço os cantos. Os tapetes, foste tu que escolheste. As plantas que tanto estimas invadem-me as paredes aos poucos e poucos, e crescem ao ritmo da atenção que lhes dás. Que inveja que lhes tenho. Nem sabes as vezes que já provaram o sabor da minha fúria. "Desculpa, mas estavam a apodrecer." E tu finges que acreditas, porque sabes que não me podes abrir a boca. És um cobarde. E escusas de me olhar dessa forma, só porque hoje fizeste questão de chegar mais cedo a casa do que eu. Também queria poder olhar para ti, e lembrar-me do rapazolas de calças de ganga esfarrapadas que um dia me seduziu. Mas não posso. Das poucas vezes que te deixo olhar-me nos olhos, desfaleço. Sabes disso. E é por isso mesmo que não me vês. Porque eu não quero.

Monday, January 09, 2006

Despertar

Acordei com a falta da tua presença, ironia das ironias. Ainda te procurei pela cama de olhos fechados, como se coubesses nos escassos centímetros que me restavam apalpar, ou se tivesses por hábito fazer o pino assim que acordasses. Soltei um suspiro, não sei de conformado, se de alívio. Ainda tenho dificuldade em distinguir o que sinto no que toca a ti. Sei que te gosto do cheiro da pele, da forma como ris. Sei que te estou habituado a ouvir nos teus afazeres, quando chego a casa mesmo a tempo de perder o jantar. Aborreces-me quando me ignoras de dia, mas sei que a tua falta de atenção me chega. Nunca fui muito exigente contigo, sabes bem disso. Foram raras as vezes que discutimos, mais raras ainda as que te levantei a voz. Tu? Tornaste-te numa especialista da nossa falta de harmonia. Viras-me as costas como se não estivesse ali ninguém, deixando-me a respirar sozinho o ar baforento a que sabe o silêncio de quem nos faz falta. Nunca te disse o quanto me magoavas quando o fazes. Talvez esteja a guardar esse trunfo para outra ocasião, cínico que estou de que um dia te vais dar ao trabalho de ouvir os meus desabafos. Porra. E ainda nem me levantei.

Saturday, January 07, 2006

Não me acordes

Deixei-te levantar-te, mais uma vez, sem dizer nada. Às vezes parece que me olhas durante a noite toda, à espera que adormeça. Mas há muito tempo que o sono não me visita. E está cada vez mais fácil para mim fingir que estou a dormir. Repouso os meus olhos no chão, contando infinitamente os pequenos defeitos do soalho de madeira, como se amanhã por magia não lá estivessem... ou não tivesse que os contar. As lágrimas deslizam-me silenciosamente pela face, como se dançassem ao som constrangedor de um nada que se repete, noite após noite, enquanto não dormimos. Preparas-te para ir embora, sem sequer me dares um último beijo de boa noite. Nem imaginas a falta que me faz que me toques. Quem sou eu para te perguntar onde vais de noite, se quase nem nos falamos de dia? Encostaste a porta, e o ciclo repete-se. A nossa vida é uma fachada, sabias? Não te espantes se qualquer noite eu não estiver aqui, quando te apetece voltar. E nem te atrevas a olhar para mim durante o dia. Nem te atrevas.

Thursday, January 05, 2006

Enquanto Dormias

Levantei-me, uma noite. Olhei para ti, uma última vez, como se te confortasse ao de leve com o meu olhar enternecido. Um olhar de quem te vê sem maquilhagens, sem preconceitos, sem barreiras intransponíveis. És a mulher mais linda do mundo. Não to digo vezes suficientes. Estavas ali, e em mais lado nenhum. Mas o nenhum acordou-me, mais uma vez. E assim me levantei, enquanto dormias, para viver durante a noite o que não posso durante o dia.