Sozinha
Que bem que te sabe sentar nessa janela, não é? Sempre tiveste essa atracção pela solidão, mesmo quando estás rodeado de amigos. Pelo menos não me sinto culpada. Tratas toda a gente da mesma maneira. Tens amigos que te tratam mal, que não te respeitam. Tu? Perdoas e esqueces como se nada fosse. Antes de os teus queridos amigos saberem da nossa pequena paixão, sabes o que diziam de ti quando não estavas? Que eras estranho, que passavas despercebido. Que o mistério da tua existência era tão aborrecido que ninguém tinha vontade de o desvendar. Idiotas. Afastei-os a todos, um a um. Não me importa que penses que sou anti-social, que sou má pessoa. O teu mistério é meu, e de mais ninguém. Fui eu que te vi a chorar no cinema naquele filme francês lamechas, mesmo antes de saberes o meu nome. Fui eu que te vi a sair de um exame acusado de cábulas sem dizeres uma única palavra, quando tinha sido um dos teus preciosos amigos a copiar descaradamente das tuas folhas de rascunho. Fui eu que te vi a atravessar a rua de propósito para apanhar uma lata de refrigerante que alguém havia deixado no passeio, como se a rua fosse o caixote de lixo mais próximo. E fui eu que fiz questão que me visses pelo menos dia sim, dia não, no corredor da escola. Não foste tu que deste o primeiro passo, meu amor. Até nos matraquilhos eu me continha para não te assustar. Mas a confiança da perseguição fez-te bem, não foi? Como as coisas mudam. A mim, resta-me praticar a ginástica que faço para te olhar, sem que nisso repares. Limpo o pó que não existe, numa prateleira que afinal só hoje reparei ser da tua antiga casa. Vejo-te a olhar pela janela, como que o estivesse lá fora fosse infinitamente mais atraente que eu. Esticas o braço, com o comando na mão. Sento-me, e repouso a face nos meus braços franzinos, em cima da mesa da cozinha, onde não me consegues ver. Dou comigo a suster a respiração, assim que ligas a aparelhagem. Não sei o que pensas, achas que sou estúpida? Brincas com a falta que o teu toque me faz, como se gostasses de me ver sofrer. Tapo os ouvidos e começo a chorar, ao som da música que ouvíamos na primeira vez que fizemos amor. Odeio-te.

