Sunday, June 25, 2006

Mono

Desligo a música, já não a suporto. Confesso. Fico aqui, deitado no sofá, à espera de te ver espreitar pela porta. De me rever na tua cara de embaraço, enquanto te despia lentamente pela primeira vez. Não eras a única, deixa lá. Deixaste-me sem saber o que fazer. Queria que aquele ritual tolo durasse para sempre. Era ali que eu queria estar, mais do que nunca. Tenho a certeza que se demorasse mais um segundo, tinhas-me feito uma careta. E por pouco não a fizeste. Nasceste com a nítida impressão que tens um sentido de humor que move montanhas, mas se me tivesses dito alguma coisa naquele momento, tinha perdido a coragem toda. Antecipei-me, portanto. Comecei a descobrir-te os ombros quando te preparavas para gentilmente assassinar o meu ego, e no meio daquele teu primeiro suspiro que cortei em dois, senti-te mais vulnerável do que nunca. Sentir o corar lento e quente da tua face arrombou o pouco que restava de defesas outrora bem mais difíceis de conquistar. Estava irremediavelmente apaixonado. Tivesse o resto corrido tão bem, diria. Desapertar um soutien pareceu-me bem mais difícil naquela altura do que qualquer relação que tinha tido até esse momento. O teu top com pretenções a camisa de forças recusava-se a colaborar comigo, e sofri heroicamente em silêncio quando me fizeste um arranhão do qual ainda hoje guardo nítidas recordações, enquanto esgrimias corajosamente com os botões das minhas calças. Demorei o que me pareceram horas a descalçar os sapatos, e ainda tive tempo para quase te deixar cair prostrada no chão, no infeliz e irrepetível acto romântico de te levar ao colo para o quarto, por sua vez completamente desarrumado. Foi apenas quando me deste o colar para guardar noutro lado que não no nosso caminho, que acidentalmente liguei o miserável alarme que guardava no topo da cómoda ao lado da cama. Tinha rádio, o sacana. Sabe-se lá quantas horas havia perdido a tentar não acordar com o que mais parecia um coro de gatos às portas da morte, para que fosse um desajeitado e atabalhoado conjunto de movimentos a perpertar o milagre. Tinha uma aparelhagem mesmo ali ao lado, entenda-se. Devidamente artilhada e preparada para quando aquele momento chegasse. Deus sabe quantas vezes o havia planeado. Lição nº1: poucas coisas correm como o previsto nestas alturas. Acabou por ser num relógio de alarme que a ouvimos pela primeira vez. Poucas coisas fizeram tanto sentido desde esse dia como estar ali contigo. Engraçado que seja agora, passado tanto tempo, que a mesma música toque em estéreo e em perfeita sintonia com o emaranhado em que se tornou a nossa relação. E para quê, pergunto-te? Trocava isto tudo por um alarme estúpido, mesmo que este apenas toque sem que eu saiba muito bem como o ligar.

Saturday, March 11, 2006

Sozinha

Que bem que te sabe sentar nessa janela, não é? Sempre tiveste essa atracção pela solidão, mesmo quando estás rodeado de amigos. Pelo menos não me sinto culpada. Tratas toda a gente da mesma maneira. Tens amigos que te tratam mal, que não te respeitam. Tu? Perdoas e esqueces como se nada fosse. Antes de os teus queridos amigos saberem da nossa pequena paixão, sabes o que diziam de ti quando não estavas? Que eras estranho, que passavas despercebido. Que o mistério da tua existência era tão aborrecido que ninguém tinha vontade de o desvendar. Idiotas. Afastei-os a todos, um a um. Não me importa que penses que sou anti-social, que sou má pessoa. O teu mistério é meu, e de mais ninguém. Fui eu que te vi a chorar no cinema naquele filme francês lamechas, mesmo antes de saberes o meu nome. Fui eu que te vi a sair de um exame acusado de cábulas sem dizeres uma única palavra, quando tinha sido um dos teus preciosos amigos a copiar descaradamente das tuas folhas de rascunho. Fui eu que te vi a atravessar a rua de propósito para apanhar uma lata de refrigerante que alguém havia deixado no passeio, como se a rua fosse o caixote de lixo mais próximo. E fui eu que fiz questão que me visses pelo menos dia sim, dia não, no corredor da escola. Não foste tu que deste o primeiro passo, meu amor. Até nos matraquilhos eu me continha para não te assustar. Mas a confiança da perseguição fez-te bem, não foi? Como as coisas mudam. A mim, resta-me praticar a ginástica que faço para te olhar, sem que nisso repares. Limpo o pó que não existe, numa prateleira que afinal só hoje reparei ser da tua antiga casa. Vejo-te a olhar pela janela, como que o estivesse lá fora fosse infinitamente mais atraente que eu. Esticas o braço, com o comando na mão. Sento-me, e repouso a face nos meus braços franzinos, em cima da mesa da cozinha, onde não me consegues ver. Dou comigo a suster a respiração, assim que ligas a aparelhagem. Não sei o que pensas, achas que sou estúpida? Brincas com a falta que o teu toque me faz, como se gostasses de me ver sofrer. Tapo os ouvidos e começo a chorar, ao som da música que ouvíamos na primeira vez que fizemos amor. Odeio-te.

Sunday, February 05, 2006

Chove, aqui fora

Chove torrencialmente lá fora. Perco-me, no tempo que passo sentado perto da janela. Nunca chegaste a perceber porque fiquei imediatamente apaixonado pela casa, assim que nos abriram a porta para entrarmos. Também nunca me perguntaste, não foi? Como até tinhas perguntado o preço às escondidas, como fizeste com todas as outras que tínhamos visto, nem reclamaste quando abracei o sujeito da imobiliária e lhe disse que não precisavamos de procurar mais... era aquela, sem a menor sombra de dúvida. Esboçaste um sorriso vitorioso, lembro-me bem. Sabias que me derretia com a hipótese de viver num apartamento destes, cuidadosamente restaurado, mas com as rugas do tempo ainda bem visíveis. Nunca fui muito de merdas contemporâneas. Irritam-me as arrumações traçadas numa complicada equação de física, onde aparentemente ganha quem usar as cores mais berrantes e as mais intrincadas combinações dos tapetes da casa-de-banho com os quadros da sala. A decoração retrógada acabou por nascer naturalmente dos meus inexplicáveis gostos pela madeira, e da tua indiferença geral para com o sítio onde um dia vamos criar os nossos filhos. Foi pelas janelas, meu amor. Apaixonei-me pelas janelas, como um dia me apaixonei pelo teu sorriso, enquanto me massacravas nos matraquilhos da faculdade. Pelas mesmas janelas onde me sento, noite após noite, olhando-te pelo reflexo do vidro... como se estivesse do lado de fora, e te implorasse para me deixares entrar.

Wednesday, January 11, 2006

Chegar

Hesitei antes de entrar, convicta que já tinhas chegado. Solto um suspiro e levo as costas da mão à cabeça, como se o trabalho de escravidão a que sou sujeita na galeria durante o dia nada fosse, quando comparado com a inconveniência da tua presença. Rodo a chave e entro. Não me sinto em casa. Não lhe sinto o conforto de outrora, nem lhe reconheço os cantos. Os tapetes, foste tu que escolheste. As plantas que tanto estimas invadem-me as paredes aos poucos e poucos, e crescem ao ritmo da atenção que lhes dás. Que inveja que lhes tenho. Nem sabes as vezes que já provaram o sabor da minha fúria. "Desculpa, mas estavam a apodrecer." E tu finges que acreditas, porque sabes que não me podes abrir a boca. És um cobarde. E escusas de me olhar dessa forma, só porque hoje fizeste questão de chegar mais cedo a casa do que eu. Também queria poder olhar para ti, e lembrar-me do rapazolas de calças de ganga esfarrapadas que um dia me seduziu. Mas não posso. Das poucas vezes que te deixo olhar-me nos olhos, desfaleço. Sabes disso. E é por isso mesmo que não me vês. Porque eu não quero.

Monday, January 09, 2006

Despertar

Acordei com a falta da tua presença, ironia das ironias. Ainda te procurei pela cama de olhos fechados, como se coubesses nos escassos centímetros que me restavam apalpar, ou se tivesses por hábito fazer o pino assim que acordasses. Soltei um suspiro, não sei de conformado, se de alívio. Ainda tenho dificuldade em distinguir o que sinto no que toca a ti. Sei que te gosto do cheiro da pele, da forma como ris. Sei que te estou habituado a ouvir nos teus afazeres, quando chego a casa mesmo a tempo de perder o jantar. Aborreces-me quando me ignoras de dia, mas sei que a tua falta de atenção me chega. Nunca fui muito exigente contigo, sabes bem disso. Foram raras as vezes que discutimos, mais raras ainda as que te levantei a voz. Tu? Tornaste-te numa especialista da nossa falta de harmonia. Viras-me as costas como se não estivesse ali ninguém, deixando-me a respirar sozinho o ar baforento a que sabe o silêncio de quem nos faz falta. Nunca te disse o quanto me magoavas quando o fazes. Talvez esteja a guardar esse trunfo para outra ocasião, cínico que estou de que um dia te vais dar ao trabalho de ouvir os meus desabafos. Porra. E ainda nem me levantei.

Saturday, January 07, 2006

Não me acordes

Deixei-te levantar-te, mais uma vez, sem dizer nada. Às vezes parece que me olhas durante a noite toda, à espera que adormeça. Mas há muito tempo que o sono não me visita. E está cada vez mais fácil para mim fingir que estou a dormir. Repouso os meus olhos no chão, contando infinitamente os pequenos defeitos do soalho de madeira, como se amanhã por magia não lá estivessem... ou não tivesse que os contar. As lágrimas deslizam-me silenciosamente pela face, como se dançassem ao som constrangedor de um nada que se repete, noite após noite, enquanto não dormimos. Preparas-te para ir embora, sem sequer me dares um último beijo de boa noite. Nem imaginas a falta que me faz que me toques. Quem sou eu para te perguntar onde vais de noite, se quase nem nos falamos de dia? Encostaste a porta, e o ciclo repete-se. A nossa vida é uma fachada, sabias? Não te espantes se qualquer noite eu não estiver aqui, quando te apetece voltar. E nem te atrevas a olhar para mim durante o dia. Nem te atrevas.

Thursday, January 05, 2006

Enquanto Dormias

Levantei-me, uma noite. Olhei para ti, uma última vez, como se te confortasse ao de leve com o meu olhar enternecido. Um olhar de quem te vê sem maquilhagens, sem preconceitos, sem barreiras intransponíveis. És a mulher mais linda do mundo. Não to digo vezes suficientes. Estavas ali, e em mais lado nenhum. Mas o nenhum acordou-me, mais uma vez. E assim me levantei, enquanto dormias, para viver durante a noite o que não posso durante o dia.